Apocalipse Revelado #0

Apocalipse Revelado (Tradução Figueiredo)

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APOCALIPSE REVELADO
(Em que são desvendados os arcanos preditos no Apocalipse e que ficaram ocultos até o tempo presente)

EMANUEL SWEDENBORG
Tradução de J. Lopes Figueiredo

PRIMEIRO VOLUME

SOCIEDADE RELIGIOSA "A NOVA JERUSALÉM”
Rua das Graças, 45 — Bairro de Fátima
Rio de Janeiro — Brasil
CEP 20240
1986 Copyright © by Sociedade Religiosa "A Nova Jerusalem"

APOCALIPSE REVELADO

CONTEÚDO DO 1.° VOLUME:

- Prefácio do tradutor
- Prefácio do autor
- Sumário das doutrinas dos Católico-Romanos
- Sumário das doutrinas dos Reformados
- Capítulos 1 a 11 do Apocalipse com sumários do sentido espiritual dos capítulos e dos versículos, seguidos de explicação minuciosa dos arcanos contidos em cada versículo, bem como, depois da explicação de cada capítulo, de exposições sobre coisas vistas e ouvidas (Memoráveis).

PREFACIO DO TRADUTOR

Escrito em latim, Apocalypsis Revelata foi publicado pela primeira vez em 1766, na cidade de Amsterdam, Holanda, ainda em vida do autor, Emanuel Swedenborg (1688-1772).

Em seu prefácio, o autor adverte que, ao revelar o sentido interno do Apocalipse, “nada tomou de si mesmo ou de qualquer anjo, mas do Senhor somente”; assim o livro foi escrito porque "aprouve ao Senhor abrir a vista de seu espírito e instruí-lo”.

É evidente, pela leitura da obra, que ela se destinava aos adeptos das religiões cristãs então professadas (Catolicismo e Reforma) e ainda seguidas atualmente, pois Swedenborg a iniciava com os sumários das doutrinas desses dois ramos do Cristianismo.

Fundamentalmente, entretanto, o livro é do maior interesse para os seguidores da doutrina da Nova Igreja (Nova Jerusalém), revelada por intermédio do próprio Swedenborg. A eles a obra proporciona uma clara compreensão dos arcanos contidos no Apocalipse.

A tradução ora realizada baseia-se na edição latina de 1881 (American Swedenborg Printing and Publishing Society, Nova Iorque). O trabalho foi bastante facilitado pela existência de outras traduções, frequentemente consultadas pelo tradutor: a tradução francesa de 1850, de autoria de J. F. E. Le Bois de Guays (Saint-Aman, Paris); a tradução inglesa de 1970, realizada por Frank F. Coulson (Swedenborg Society. Londres); e a tradução portuguesa do princípio deste século, de autoria de Levindo Castro de La Fayette, que não chegou a ser publicada.

Não é demais esclarecer que se procurou tornar a presente tradução tão clara quanto possível, sem prejuízo, obviamente, da fidelidade ao texto original.

Considerando que a tradução de uma obra desta natureza é da maior importância e responsabilidade, o tradutor solicitou a colaboração do Rev. Andrew J. Heilman na execução da tarefa. Entretanto, essa valiosa contribuição somente pôde ser dada até o Capítulo 7, por ter-se esgotado o tempo de permanência do Rev. Heilman no Rio de Janeiro. Agradecemos o incentivo dele recebido e a utilíssima colaboração prestada.

PREFÁCIO DO AUTOR

Muitos têm trabalhado arduamente para explicar o Apocalipse, mas, como o sentido espiritual da Palavra foi ignorado até agora, eles não puderam ver os arcanos que ali se encontram ocultos, porque somente o sentido espiritual os revela. Por isso, os explicadores têm conjeturado muitas coisas, aplicando a maior parte de seu conteúdo aos estados dos impérios e também misturando coisas concernentes às matérias eclesiásticas. Mas o Apocalipse, assim como toda a Palavra, não trata, em seu sentido espiritual, de coisas mundanas, mas sim de coisas celestes; por conseguinte, não trata de impérios nem reinos, mas do céu e da Igreja.

É preciso saber que, depois do Julgamento Final, concluído no mundo espiritual, no ano de 1757, do qual se tratou especialmente em um opúsculo publicado em Londres, em 1758, foi formado um novo céu de cristãos, mas somente daqueles que puderam admitir que o Senhor é o Deus do céu e da terra segundo Suas palavras em Mateus 28; 18, e que, ao mesmo tempo, no mundo, fizeram penitência de suas más obras. Desse novo céu está descendo e continuará a descer na terra a Nova Igreja, que é a Nova Jerusalém. Que esta Igreja reconhecerá somente o Senhor é manifesto nestas palavras do Apocalipse:

"Velo a mim um dos sete anjos e me falou, dizendo: Vem, eu te mostrarei a noiva, a esposa do Cordeiro; e me mostrou a grande cidade, a santa Jerusalém, que descia do céu da parte de Deus" (Apocalipse 21; 9 e 10), e em outro lugar:

"Rejubilemo-nos e exultemos, porque chegou o tempo das núpcias do Cordeiro e Sua Esposa está pronta. Bem-aventurados aqueles que são chamados à ceia das bodas do Cordeiro". (Apocalipse 19; 7 e 9).

Que haverá um novo céu e que dele descerá a Nova Igreja sobre a terra é evidente por esta passagem:

"Vi um novo céu e uma nova terra, e vi a cidade santa, Jerusalém, que descia do céu da parte de Deus, ataviada como uma noiva adornada para seu marido, E Aquele que está assentado no trono disse: Eis que faço novas todas as coisas. E disse-me: Escreve, porque estas palavras são verdadeiras e fiéis”. (Apocalipse 21; 1, 2 e 5).

"Um novo céu" é o novo céu dos cristãos; “a Nova Jerusalém" é a Nova Igreja sobre a terra, que fará um novo céu; "Cordeiro" é o Senhor quanto ao Divino Humano.

A isto alguma coisa será acrescentada para ilustração: o céu cristão está abaixo dos céus antigos; nele, a partir do tempo em que o Senhor esteve no mundo, foram admitidos aqueles que adoravam um Deus sob três Pessoas e, ao mesmo tempo, não tinham idéia de três Deuses; e isso porque uma trindade de Pessoas havia sido recebida em todo o mundo cristão; mas aqueles que do Humano do Senhor não tiveram outra idéia que a idéia do humano de outro homem não puderam receber a fé da Nova Jerusalém, a qual é que o Senhor é o único Deus em que está a Trindade; eles foram separados e enviados aos cantos afastados. Foi permitido (a mim] ver as separações e os banimentos depois do Julgamento Final. De fato, sobre a justa idéia de Deus é fundado todo o céu e toda a Igreja na terra e, em geral, toda a religião, porque por esta idéia há conjunção e, através da conjunção, luz, sabedoria e felicidade eterna.

Cada um pode ver que o Apocalipse não pode ser explicado a não ser pelo Senhor somente; de fato, cada palavra dele contém arcanos que não podem jamais ser conhecidos sem uma ilustração especial, e, assim, sem uma revelação; pelo que aprouve ao Senhor abrir a vista de meu espírito e instruir-me. Portanto, não creais que eu tenha tomado alguma coisa de mim mesmo ou de algum anjo, mas do Senhor somente. O Senhor disse também a João, por intermédio do anjo;

Não seles as palavras da profecia deste livro. (Apocalipse 22,10). pelo que é entendido que elas devem ser manifestadas.

SUMÁRIO DAS DOUTRINAS DA IGREJA E DA RELIGIÃO DOS CATÓLICOS ROMANOS

Visto que no Apocalipse, capítulos 17, 18 e 19, também se trata de Babilónia, que é a religiosidade católico-romana, suas doutrinas devem ser mostradas inicialmente, na seguinte ordem: sobre o Batismo, sobre a Eucaristia ou Santa Ceia, sobre a Missa, sobre a Penitência, sobre a Justificação, sobre o Purgatório, sobre os Sete Sacramentos, sobre os Santos e sobre o Poder.

1. SOBRE O BATISMO eles ensinam:

Que Adão, depois da ofensa de sua prevaricação, ficou inteiramente modificado para pior, quanto ao corpo e quanto à alma.

Que esse pecado foi transfundido em todo o gênero humano.

Que esse pecado original somente é tirado pelo mérito de Cristo, e que o mérito de Cristo é aplicado pelo sacramento do Batismo, e que, assim, toda a culpabilidade do pecado original é retirada pelo Batismo,

Que, ainda, nas pessoas batizadas, permanece a cobiça como um incentivo para o pecado, mas não o pecado.

Que assim se revestem do Cristo, tornam-se novas criaturas e obtêm plena e completa remissão dos pecados.

O Batismo é chamado o banho da regeneração e da fé.

Que as pessoas batizadas, quando crescerem, devem ser interrogadas sobre as promessas feitas por seus padrinhos, o que é o Sacramento da Confirmação.

Que, por causa das quedas depois do Batismo, é necessário o Sacramento da Penitência.

2. SOBRE A EUCARISTIA OU SANTA CEIA eles ensinam:

Que, imediatamente após a consagração, o verdadeiro Corpo e o verdadeiro Sangue de Jesus Cristo são contidos realmente e substancialmente sob a espécie de pão e vinho, juntamente com Sua Alma e Sua Divindade, o Corpo sob a espécie de pão e o Sangue sob a espécie de vinho, pela força das palavras; mas o Corpo mesmo sob a espécie de pão e o Sangue sob a espécie de vinho, e a Alma sob ambas as espécies, pela força de uma conexão e de uma concomitância naturais, pelas quais as partes do Senhor Cristo são unidas entre si e também a Divindade, por causa de sua admirável união hipostática como o Corpo e a Alma; assim, tanto é contido sob uma espécie como sob ambas; em uma palavra, o Cristo pleno e integral existe sob a espécie de pão e sob a forma de cada parte dessa espécie, e plenamente também sob a espécie de vinho e sob a forma de cada parte dessa espécie; é por isso que as duas partes são separadas e que o pão é dado aos leigos e o vinho é para os padres.

Que é preciso misturar água ao vinho no cálice.

Que os leigos devem receber a comunhão dos clérigos, mas os clérigos devem dar-se a comunhão.

Que, após a consagração, o verdadeiro Corpo e o verdadeiro Sangue de Cristo estão nas hóstias, nas partículas consagradas e é por isto que a hóstia deve ser adorada, quando é mostrada e elevada.

Que esta admirável e singular conversão de toda a substância do pão em Corpo e de toda a substância do vinho em Sangue é chamada Transubstanciação.

Que a comunhão sob ambas as espécies pode ser concedida, sob certas condições, pelo Papa.

É chamado pão supersubstancial e pão dos anjos, aquele que é comido por estes sem nenhum véu; é também chamado alimento espiritual e o antídoto pelo qual se é liberado dos pecados.

3. SOBRE AS MISSAS eles ensinam:

Que é dito sacrifício da Missa, porque o sacrifício pelo qual Cristo se ofereceu a Deus Pai é representado nela sob as espécies do pão e do vinho; por isso, é um sacrifício verdadeiramente propiciatório, puro, e nada há nele que não seja santo.

Que, se o povo não comunga sacramentalmente, mas somente o Ministro, então o povo comunga espiritualmente, porque os Ministros não oferecem esse sacrifício para eles somente, mas para todos os fiéis que pertencem ao corpo de Cristo.

Que as Missas não devem ser celebradas em língua vulgar, porque elas contêm a grande instrução do povo fiel, mas os Ministros podem explicar alguma coisa no dia de domingo.

Que foram estabelecidas certas palavras místicas que serão pronunciadas em voz baixa, e certas outras que serão pronunciadas em voz mais elevada; e que, para dar majestade a tão grande sacrifício oferecido a Deus, haverá luzes, incenso, vestimentas e outras coisas desse gênero.

Que deve ser oferecida pelos pecados dos vivos, por suas penas, por suas satisfações e por suas necessidades; e também pelos mortos.

Que as Missas em honra dos santos sejam de ações de graças por sua intercessão, quando implorados.

4. SOBRE A PENITÊNCIA eles ensinam:

Que, além do Batismo, há o sacramento da Penitência, pelo qual o benefício da morte e do mérito de Cristo é aplicado àqueles que erraram depois do Batismo, pelo que é chamado uma espécie de Batismo laborioso.

Que as partes da Penitência são a Contrição, a Confissão e a Satisfação.

Que a Contrição é um dom de Deus e uma impulsão do Espírito Santo, que ainda não habita na pessoa, mas apenas a movimenta; assim, é uma disposição.

Que a Confissão deve ser feita de todos os pecados mortais, mesmo os mais secretos, bem como das intenções.

Que os pecados que são omitidos não são perdoados, mas aqueles que não ocorrem após diligente exame estão incluídos na Confissão.

Que ela deve ser feita uma vez por ano peio menos.

Que os pecados devem ser absolvidos pelos Ministros das chaves e que são perdoados quando eles dizem: "Eu absolvo."

Que a absolvição é como o ato de um juiz, quando uma sentença é pronunciada.

Que os pecados mais graves devem ser absolvidos pelos Bispos e os mais graves ainda pelo Papa.

A Satisfação se faz pelas punições satisfatórias que devem ser impostas pelo Sacerdote, a seu critério, segundo a medida do delito.

Que com a pena eterna é também rejeitada a pena temporal.

Que o poder das Indulgências foi deixado pelo Cristo e que seu uso é extremamente salutar.

5. SOBRE A JUSTIFICAÇÃO eles ensinam:

Que a transferência de estado, em que o homem nasce filho de Adão, no estado de graça, através do segundo Adão Salvador, não se faz sem o banho da regeneração e da fé, ou batismo.

Que o segundo começo da justificação vem da graça proveniente, que é a vocação com que o homem coopera, convertendo-se a si mesmo.

Que a disposição se faz pela Fé, quando o homem crê que as coisas que foram reveladas são verdadeiras, Fé para a qual ele é levado livremente; depois pela Esperança, quando ele crê que Deus é propício à causa do Cristo; e pela Caridade, pela qual ele começa a amar o próximo e a odiar o pecado.

Que a Justificação, que se segue, não somente é a remissão dos pecados, mas também a santificação e a renovação do homem interior. Então não se é reputado justo, mas se é justo, recebendo a justiça; e como se aceita o mérito da paixão do Cristo, a Justificação é inserida pela Fé, pela Esperança e pela Caridade.

Que a Fé é o começo da salvação humana, o fundamento e a raiz da Justificação; e é isto ser justificado pela Fé; e como coisa alguma do que precede a justificação, seja a fé ou sejam as obras, não merece a graça da justificação, é isso ser justificado gratuitamente, porque há a graça proveniente; e contudo o homem é justificado pelas obras e não pela fé somente.

Que os justos caem em pecados leves ou veniais e contudo eles são justos; e os justos devem, por conseguinte, por preces, oferendas, esmolas e jejuns, trabalhar continuamente para não caírem, porque eles são renascidos na esperança da glória e não na glória.

Que os justos, se perderem a graça da Justificação, podem ser, de novo, justificados pelo Sacramento da Penitência; por todo o pecado mortal a graça é perdida, mas não a fé; entretanto, pela infidelidade, que é a renúncia à religião, a fé também é perdida.

Que a fé de um homem justificado são méritos, e que aqueles que foram justificados pelas coisas que eles fazem por intermédio da graça de Deus e do mérito de Cristo merecem a vida eterna.

Que o livre arbítrio, depois do pecado de Adão, não foi perdido nem extinto, e o homem coopera dando seu assentimento a Deus que o chama; de outro modo ele seria um corpo inanimado.

Que se estabelece a Predestinação dizendo que ninguém sabe, exceto por uma revelação especial, se ele está no número dos predestinados e entre os que Deus escolheu para Si.

6. SOBRE O PURGATÓRIO eles ensinam:

Que toda a falta submetida a uma pena temporal não é apagada pela justificação; por isso, todos vão para o Purgatório para serem purificados, antes que a entrada no Céu seja aberta.

Que as almas que lá estão detidas são aliviadas pela ajuda dos fiéis e principalmente pelo sacrifício da Missa, e isso deve ser cuidadosamente ensinado e pregado.

Os tormentos lá sofridos são descritos de diversos modos, mas são invenções e puras ficções.

7. SOBRE OS SETE SACRAMENTOS eles ensinam:

Que há sete sacramentos: Batismo, Confirmação, Eucaristia, Penitência, Extrema-Unção, Ordem e Casamento.

Que não há mais nem menos que isso.

Que um pode ser mais digno do que outro.

Que eles contêm a graça e que a graça é conferida segundo a obra operada por eles.

Que os sacramentos, na Lei Antiga, eram no mesmo número.

(Acima se tratou do Batismo, da Confirmação, da Eucaristia e da Penitência).

Sobre o sacramento da Extrema-Unção:

Que ele é baseado na Epístola de Tiago (5; 14 e 15).

Que ele é dado aos doentes no fim da vida, daí ser chamado Sacramento dos que partem.

Que aos que se recuperarem ele pode ser aplicado de novo.

Que ele é administrado com óleo abençoado pelo Bispo, com estas palavras: "Deus te seja indulgente por todos os pecados que cometeste por depravação dos olhos, das narinas ou do tato.”

Sobre o sacramento da Ordem:

Que há no ministério do sacerdócio sete ordens que diferem em dignidade e juntas têm por nome Hierarquia Eclesiástica, a qual é como um exército em ordem de batalha.

Que as inaugurações no ministério são efetuadas por unções e pela transmissão do Espírito Santo nos que são inaugurados.

Que, para a ordenação de Bispos ou Prelados, o poder secular, ou o consentimento do Magistrado, ou a sua chamada ou autoridade não são exigidos.

Que aqueles que sobem ao ministério somente pela chamada do poder secular não são ministros, mas ladrões e furtadores, que não entram pela porta.

Sobre o sacramento do Matrimónio:

Que a dispensa dos graus (de consanguinidade) e os divórcios pertencem à Igreja.

Que os clérigos não podem contrair matrimónio.

Que eles podem ter o dom da castidade e, se um deles diz que não pode tê-lo, quando na verdade faz o voto, isso é anátema, porque Deus não recusa esse dom aos que o pedem sinceramente e não tolera que alguém possa ser tentado além de suas forças.

Que o estado de virgindade e de celibato deve ser preferido ao estado conjugal; além de muitas outras coisas sobre o casamento.

8. SOBRE OS SANTOS eles ensinam:

Que os Santos, que reinam conjuntamente com Cristo, oferecem a Deus suas preces pelos homens.

Que o Cristo deve ser adorado e os santos invocados.

Que a invocação dos santos não é uma idolatria e não é contrária à honra de um só Mediador entre Deus e os homens; ela é chamada Latria.

Que as imagens de Cristo, de Maria, mãe de Deus, e dos santos devem ser veneradas e honradas; é preciso crer não que haja nelas Divindade nem virtude alguma, mas que a honra que se lhes presta é atribuída aos protótipos que elas representam; e, pelas imagens que são beijadas, e diante das quais se prostram e descobrem a cabeça, adora-se o Cristo e veneram-se os santos.

Que os milagres de Deus são operados pelos santos.

9. SOBRE O PODER eles ensinam:

Que o Papa romano é o sucessor do apóstolo Pedro e o vigário de Jesus Cristo, o Chefe da Igreja e o Bispo universal.

Que ele está acima dos concílios.

Que ele tem as chaves para abrir e fechar o céu, assim o poder de perdoar e reter pecados; a ele, portanto, como guardador das chaves da vida eterna, pertencem os direitos do império terrestre e, ao mesmo tempo, os direitos do império celeste.

Que os bispos e prelados também, por ele, têm um igual poder, porque esse poder também foi dado aos outros Apóstolos, e é por isso que eles são chamados ministros das chaves.

Que compete à Igreja julgar o verdadeiro sentido e a interpretação da Escritura Santa e aqueles que forem contra isto devem ser punidos com as penas estabelecidas segundo a lei.

Que não convém que os leigos leiam a Escritura Santa, porque somente a Igreja conhece o sentido.

Consequentemente, os ministros da Igreja se gabam de conhecê-lo.

Esses doutrinais são tirados dos Concílios e das bulas, principalmente do Concílio de Trento e da bula papal que o confirmou, onde todos os que pensam, crêem e agem contra as coisas que foram decretadas, as quais são, em geral, as acima referidas, são condenados ao anátema.

SUMÁRIO DAS DOUTRINAS DA IGREJA E DA RELIGIÃO DOS REFORMADOS

Como no Apocalipse, em seu sentido espiritual, muito se trata dos Reformados, também é conveniente, desde o princípio das explicações, pôr em evidência seus doutrinais e colocá-los nesta ordem: sobre Deus, sobre Cristo o Senhor, sobre a Justificação pela fé e sobre as boas obras, sobre a Lei e o Evangelho, sobre a Penitência e a Confissão, sobre o pecado Original, sobre o Batismo, sobre a Santa Ceia, sobre o Livre Arbítrio e sobre a Igreja.

1. SOBRE DEUS:

Crê-se sobre Deus de conformidade com a fé simbólica contida no Credo Atanasiano, o qual, por ser conhecido por todos, não é aqui exposto. Também é notória a crença em Deus Pai como Criador e Conservador, em Deus Filho como Salvador e Redentor e no Espírito Santo como Ilustrador e Santificador.

2. SOBRE CRISTO, O SENHOR:

Sobre a Pessoa do Cristo não é ensinada a mesma coisa por todos os Reformados.

Eis o que ensinam os Luteranos:

Que a Virgem Maria não somente concebeu e gerou um verdadeiro homem, como também o verdadeiro Filho de Deus; por isso ela é com razão chamada Mãe de Deus e ela realmente é.

Que em Cristo há duas naturezas, a natureza Divina e a natureza Humana, a Divina de toda eternidade e a Humana no tempo.

Que essas duas naturezas foram pessoalmente unidas, de tal modo que elas não são de forma alguma dois Cristos, um o Filho de Deus e outro o Filho do homem, mas que eles são um só, o mesmo Filho de Deus e Filho do homem; não que essas duas naturezas tenham sido mescladas em uma só substância, nem que uma tenha sido mudada em outra, mas uma e outra retêm suas propriedades essenciais; até mesmo é descrito o que são essas propriedades.

Que sua união é hipostática e esta união é uma comunhão, qual a da alma e do corpo.

Que, assim, é com razão que se diz que, no Cristo, Deus é Homem e o Homem é Deus.

Que Ele padeceu por nós não somente como homem, mas também como Homem cuja natureza humana tem com o Filho de Deus uma tão estreita união e comunhão inefável, que se tornou uma só pessoa com Ele.

Que o Filho de Deus verdadeiramente sofreu por nós, mas contudo segundo as propriedades humanas.

Que o Filho do Homem, pelo qual é entendido o Cristo quanto à natureza humana, foi realmente elevado à direita de Deus, quando Ele foi tomado como Deus, o que foi efetuado quando, no seio da mãe, Ele foi concebido do Espírito Santo.

Que o Cristo teve sempre essa majestade em razão da união pessoal, mas no estado de exinanição Ele não exerceu essa majestade, senão tanto quanto lhe parecia conveniente. Contudo, depois da ressurreição, Ele depôs plena e absolutamente a forma de servidor e tomou a natureza ou a essência Humana na plena posse da Majestade Divina e é desta maneira que Ele entrou na glória. Em uma palavra: o Cristo é verdadeiro Deus e Homem em uma Pessoa indivisível e Ele o é pela eternidade. Verdadeiro, onipotente e eterno Deus; mesmo presente quanto ao Humano à direita de Deus, Ele governa todas as coisas no céu e na terra e também enche todas as coisas, está conosco, habita e opera em nós.

Que não há diferença de adoração, porque, pela natureza que é vista, adora-se a Divindade que não é vista.

Que a Essência Divina comunica e proporciona suas próprias excelências à natureza Humana e aperfeiçoa suas Divinas operações pelo corpo como por seu Órgão; assim, toda a plenitude da Divindade habita corporalmente no Cristo, segundo Paulo.

Que a encarnação foi feita para nos reconciliar com o Pai e a fim de que o Cristo se tornasse vítima pelos pecados de todo o mundo, tanto originais como atuais.

Que Ele foi encarnado da substância do Espírito Santo, mas a natureza Humana que, como Palavra, Ele tomou e uniu a Si, foi produzida pela Virgem Maria.

Que Ele santifica os que crêem n'Ele, enviando ao coração deles o Espírito Santo, que os dirige, os consola e os vivifica, e que os detende contra o diabo e contra a violência do pecado.

Que o Cristo baixou aos infernos e destruiu os infernos para todos os crentes, mas Ele não quer que se indague com curiosidade o modo como essas coisas foram feitas; o conhecimento desse assunto é reservado a um outro século, quando não somente este mistério mas também muitos outros serão revelados.

(Esses doutrinais são tirados de Luthero, da Confissão de Augsburg, do Concílio de Nicéia e dos Artigos de Smasklden. Vide Fórmula de Concórdia.)

Uma parte dos Reformados de que também se fala na Fórmula de Concórdia acredita:

Que Cristo, segundo a natureza Humana, recebeu, somente por exaltação, dons criados e uma potência finita; que, assim. Ele é homem como um outro homem, retendo as propriedades da carne.

Que, por conseguinte, quanto à natureza Humana, Ele não é Onipresente nem Onisciente.

Que, embora ausente, Ele governa como um Rei as coisas afastadas d’Ele.

Que, como Deus de toda a eternidade, Ele está com o Pai e que, como Homem, nascido no tempo, Ele está com os anjos no céu.

Que a locução "no Cristo, Deus é Homem e o Homem é Deus” é uma locução figurada; além de muitas outras coisas do mesmo gênero.

Essa diferença de opinião é regulada pelo Simbolo de Atanásio, recebido por todos no mundo cristão e no qual se diz; “A verdadeira fé é que creiamos e confessemos que Nosso Senhor Jesus Cristo, Filho de Deus, é Deus e Homem, Deus pela substância do Pai, nascido antes do mundo, e Homem pela substância da mãe, nascido no mundo, Deus perfeito e Homem perfeito. Ainda que Ele seja Deus e Homem, entretanto, não são dois, mas um só Cristo; um, não por conversão da Essência Divina em um corpo, mas por assunção de Seu Humano em Deus; um absolutamente, não por confusão de substâncias, mas por unidade de Pessoa, pois, do mesmo modo que a alma racional e o corpo são um só homem, assim Deus e o Homem é um só Cristo.”

3. SOBRE A JUSTIFICAÇÃO PELA FÉ E SOBRE AS BOAS OBRAS:

A fé justificante e salvífica dos clérigos é a seguinte, em resumo:

Deus Pai desviou-se do gênero humano por causa das suas iniquidades e assim, pela justiça, Ele o condenou à morte eterna; por isso Ele enviou Seu Filho ao mundo, a fim de expiar e resgatar, satisfazer e reconciliar; e o Filho fez isso tomando sobre Si a condenação da lei, deixando-se crucificar e cumprindo assim, e por obediência, toda a justiça de Deus, ao ponto de Ele mesmo tornar-se a justiça; e Deus Pai imputa e aplica essa justiça como mérito do Filho aos que crêem e lhes envia o Espírito Santo, que opera a caridade, as boas obras, a penitência, que, como uma boa árvore, produz bons frutos, e justifica, renova, regenera e santifica; e esta fé é o único meio de salvação e somente por meio dela são perdoados os pecados do homem.

Eles distinguem entre o ato e o estado de justificação.

Pelo ato de justificação, eles entendem o começo da justificação, que se faz em um momento, quando o homem por essa fé só assume com confiança o mérito do Cristo.

Pelo estado de justificação, eles entendem o progresso dessa fé, o qual se faz pela operação interior do Espírito Santo, operação que só se manifesta por certos sinais, a respeito dos quais eles ensinam diversas coisas.

Eles tratam também de boas obras manifestas, que são feitas pelo homem e por sua vontade, e que seguem essa fé, mas excluem da justificação essas boas obras porque nelas há o próprio e, assim, o mérito do homem.

O resumo acima é a fé de hoje, mas as confirmações dessa fé e as tradições que a ela se referem são numerosas e multiplicadas. Algumas serão referidas a seguir.

Os homens não podem ser justificados perante Deus por suas próprias forças, méritos ou obras, mas o são gratuitamente por causa do Cristo, pela fé, segundo a qual eles crêem que são recebidos em graça e que os pecados são perdoados por causa do Cristo, que, por Sua morte, satisfez por nós, e Deus Pai imputa isso aos crentes por justiça perante Ele.

Essa fé é não somente um conhecimento histórico, de que o Cristo sofreu e morreu por nós, mas também é um assentimento do coração, uma confiança e uma segurança de que os pecados são gratuitamente perdoados por causa do Cristo e, assim, se é justificado. Então, três coisas concorrem: a promessa gratuita, o mérito do Cristo como prémio e a propiciação.

A fé é a justiça pela qual somos, diante de Deus, reputados justos por causa da promessa; e ser justificado é ser absolvido de seus pecados e até se pode, de certo modo, dizer que é ser vivificado e regenerado.

A fé nos é reputada em justiça, não porque ela seja uma tão boa obra, mas porque ela assume o mérito de Cristo.

O mérito de Cristo é Sua obediência, Sua paixão, Sua morte e Sua ressurreição.

É necessário que haja alguma coisa pela qual Deus possa ser aproximado e essa alguma coisa não é outra senão a fé pela qual se faz a recepção.

No ato da justificação, a fé entra pela Palavra e pela audição e não é o ato do homem mas a operação do Espirito Santo e, então, o homem não coopera mais do que uma estátua de sal, um tronco ou uma pedra, nada fazendo por si próprio nem sabendo coisa alguma sobre isso. Mas, depois do ato, ele coopera, sem, entretanto, ter qualquer vontade própria nas coisas espirituais.

Mas não sucede o mesmo nas coisas naturais, civis e morais. Todavia, pode-se então progredir nas coisas espirituais até o ponto de querer o bem e nele achar deleite, mas isso vem, não da vontade própria, mas do Espírito Santo e, por conseguinte, eles cooperam não por suas próprias forças, mas por novas forças e novos dons que o Espírito Santo começou na conversão.

Na verdadeira conversão, a mudança, a renovação e o movimento são efetuados no entendimento e no coração do homem. A caridade, as boas obras e a penitência não entram no ato da justificação, mas são necessárias no estado de justificação, principalmente por causa do mandamento de Deus; e por elas um indivíduo merece as recompensas corporais desta vida, mas não a remissão dos pecados e a glória da vida eterna, porque a fé somente, sem as obras da lei, justifica e salva.

A fé pelo ato justifica o homem, mas a fé pelo estado o renova.

Na renovação, por causa do mandamento de Deus, é necessário que sejam feitas as obras honestas que o Decálogo prescreve, porque Deus quer que as concupiscências carnais sejam reprimidas pela disciplina civil; por isso Ele deu uma doutrina, leis, magistrados e punições.

Daí resulta, pois, que é falso que pelas obras merecemos remissão dos pecados e a salvação e que as obras façam alguma coisa para conservar a fé, e é falso também que o homem seja reputado justo por causa da justiça de sua razão e que a razão possa, por suas próprias forças, amar a Deus sobre todas as coisas e praticar a Sua lei.

Em uma palavra, a fé e a salvação são conservadas e retidas nos homens não pelas boas obras, mas somente pelo Espírito de Deus e pela fé. Contudo, as boas obras são testemunho de que o Espírito Santo está presente e habita neles.

É condenada como perniciosa a expressão "que as boas obras são nocivas à salvação”, porque se deve entender que as obras interiores do Espírito Santo é que são boas e não as obras exteriores procedentes da própria vontade do homem, que não são boas, mas sim más, por serem consideradas meritórias.

Além disso, ensinam que o Cristo, no juízo final, dará sentença sobre as obras boas e más como efeitos próprios do homem e não próprios da fé do homem.

Hoje, essa fé reina em todo o mundo cristão dos Reformados entre os clérigos, mas não entre os leigos, exceto em um número muito pequeno. Pois pela fé os leigos não entendem outra coisa senão crer em Deus Pai, Filho e Espírito Santo e que aquele que leva uma vida pura e crê é salvo, e a respeito do Senhor que Ele é o Salvador. Com efeito, eles ignoram os mistérios da justificação de seus pregadores, mistérios que, apesar de pregados, entram contudo nos ouvintes leigos por um ouvido e saem pelo outro. Ainda mais, os próprios mestres se consideram eruditos pelo conhecimento desses mistérios e, nas escolas e universidades, eles trabalham muito para compreendê-los. Por isso foi dito acima que essa fé é a fé do clero.

Entretanto, os mestres ainda ensinam de diversos modos essa mesma fé nos reinos onde estão os Reformados.

Na Alemanha, Suécia e Dinamarca, eles ensinam que o Espírito Santo opera por essa fé; que Ele justifica e santifica os homens e que, depois, sucessivamente, os renova e os regenera, mas sem as obras da lei; e que os que estão nessa fé pela segurança e pela confiança estão na graça, junto de Deus Pai; e que então os males que eles fazem aparecem, é verdade, mas são continuamente perdoados.

Na Inglaterra, eles ensinam que essa fé opera a caridade sem que o homem o saiba, e que isso também é o bem da caridade, quando o homem sente interiormente o Espírito Santo operar nele, e que, se ele não o sente, e contudo faz o bem para a salvação, isso pode ser chamado o bem, mas vem entretanto do homem, de ser nele um mérito. Ensinam, também, que essa fé pode operar na última hora da morte, ainda que não se saiba como.

Na Holanda, eles ensinam que Deus Pai. por causa do Filho, justifica e purifica o homem pelo Espírito Santo por meio dessa fé, mas somente até à vontade do homem, da qual a fé se volta sem nela tocar (alguns dizem que ela a toca ligeiramente). Assim, os males da vontade do homem não aparecem perante Deus.

Poucos leigos têm conhecimento desses mistérios e os eclesiásticos não os querem publicar como são, porque sabem que os leigos não gostam deles.

4. SOBRE A LEI E O EVANGELHO:

A Lei foi dada por Deus para que se saiba o que é o pecado e, assim, para que ele seja expulso pela ameaça e pelo temor: e depois pela promessa e pelo anúncio da graça.

Por isso, a função principal da Lei é que o pecado original e todos os seus frutos sejam revelados e se saiba de que modo horrível caiu a natureza do homem e ficou inteiramente depravada.

Por essa razão, ela inteiramente amedronta, humilha e prostra o homem, até que ele desespera de si mesmo e deseja socorro ansiosamente.

Esse efeito da Lei é chamado contrição, que não é ativa ou factícia, mas passiva e um tormento da consciência.

Mas o Evangelho é toda a doutrina sobre o Cristo e a fé e, portanto, sobre a remissão dos pecados, e conseqúentemente uma alegre mensagem, que não reprova nem aterroriza, mas consola.

Pela Lei, a cólera de Deus é revelada sobre toda a impiedade e o homem é condenado: ela faz, pois, que o homem dirija seus olhares para o Cristo e o Evangelho.

A prédica deve ser feita sobre a Lei e o Evangelho, porque eles estão conjuntos.

O Evangelho ensina que o Cristo tomou sobre Si toda a maldição da Lei e expiou todos os pecados, e que conseguimos a remissão deles pela fé.

O Espírito Santo é dado e recebido e o coração do homem é renovado, não pela prédica da Lei, mas pelo Evangelho; e o Espírito se serve depois do ministério da Lei para ensinar e mostrar no Decálogo qual é a boa e agradável vontade de Deus. Assim, o Espírito mortifica e vivifica.

Deve ser feita uma distinção entre as obras da Lei e as obras do Espírito. Assim os fiéis não estão debaixo da Lei, mas sob a graça, por essa razão mesma.

A justiça da Lei não justifica, isto é, não reconcilia, não regenera e não faz por si própria que os homens sejam aceitos por Deus, mas quando o Espírito Santo é dado, segue-se o cumprimento da Lei.

As obras da segunda tábua do Decálogo não justificam, porque por ela agimos com os homens e não propriamente com Deus e, entretanto, na justificação devemos agir com Deus.

O Cristo, porque sem pecado suportou a pena do pecado e foi feito vítima em nosso lugar, retirou esse direito da Lei, a fim de que ela não dane os crentes, porque Ele é uma propiciação para eles, razão pela qual eles são reputados justos.

5. SOBRE A PENITÊNCIA E A CONFISSÃO:

A Penitência consiste em duas partes, uma das quais é a contrição ou o terror impresso na consciência por causa dos pecados: e a outra é a fé que é concebida por meio do Evangelho, e pela remissão dos pecados consola a consciência e a livra dos terrores.

Aquele que confessa que toda a sua pessoa é pecado, inclui todos os pecados, não exclui nenhum e não esquece nenhum. Assim os pecados são purgados e o homem é purificado, retificado e santificado, porque o Espírito Santo não permite que o pecado domine, mas o reprime e o restringe.

A enumeração dos pecados deve ser livre, o homem quer ou não quer, e muito deve ser feito pela confissão e absolvição privadas.

Por isso, se alguém o quiser, pode confessar os seus pecados e receber a absolvição do confessor e então os pecados são perdoados.

As palavras que o ministro deve então responder são: "Que Deus te seja propício e confirme a tua fé, que te seja feito segundo crês e eu, por ordem do Senhor, perdoo teus pecados.'' Mas outros dizem: “Eu te anuncio a remissão dos pecados."

Mas, entretanto, os pecados não são perdoados pela penitência nem pelas obras, mas pela fé.

Por isso, a penitência dos clérigos é somente uma confissão, perante Deus, que eles são pecadores, e uma prece para que eles perseverem na fé.

As expiações e as satisfações não são necessárias, porque o Cristo é a Expiação e a Satisfação.

6. SOBRE O PECADO ORIGINAL:

Eles ensinam que, depois da queda de Adão, todos os homens, propagados segundo a natureza, nascem com o pecado, isto é, sem temor de Deus e com concupiscências, e isso condena e causa ainda agora a morte eterna aos que não renascem pelo batismo e pelo Espírito Santo. É a privação da justiça original e com uma disposição desordenada da parte da alma e uma situação corrompida.

Há uma diferença entre a natureza mesma, em que o homem foi criado, o qual, mesmo depois da queda, é e permanece criatura de Deus, e o pecado original.

Assim, há uma diferença entre a natureza corrompida e a corrupção que foi incutida na natureza, pela qual ela está corrompida.

Ninguém, exceto Deus, é capaz de separar a corrupção da natureza da própria natureza.

Isto é o que será feito completamente na ressurreição bem-aventurada, porque então a própria natureza, que o homem traz ao redor dele no mundo, ressuscitará sem o pecado original e gozará a felicidade eterna.

A diferença é como entre a obra de Deus e a obra do diabo.

Esse pecado não se apoderou da natureza, como se Satã tivesse criado algum mal substancialmente e o tivesse mesclado com a natureza, mas a justiça concriada e original perdeu-se.

O pecado original é um acidente e o homem por sua razão está na presença de Deus como morto espiritualmente.

Este mal é coberto e perdoado somente pelo Cristo.

A própria semente de que o homem é formado é contaminada com esse pecado.

É também daí que o homem recebe de seus pais inclinações depravadas e uma impureza interna do coração.

7. SOBRE O BATISMO:

O batismo não é simplesmente água, mas água tomada por mandamento Divino e selada com a Palavra de Deus e, assim, santificada.

A virtude, a obra, o fruto e o fim são para que os homens sejam salvos e admitidos na comunhão cristã.

Pelo batismo, a vitória contra a morte e o diabo, a remissão dos pecados, a graça de Deus, o Cristo com todas as Suas Obras, o Espírito Santo com todos os seus dons e a bem-aventurança eterna são oferecidos a todos e a cada um dos que crêem.

Se, pelo batismo, a fé é dada às crianças, isso é uma questão profunda para ser cuidadosamente examinada.

A imersão na água significa a mortificação do velho homem e a ressurreição do novo. Por isso, ela pode ser chamada o banho da regeneração e o verdadeiro banho na Palavra, bem como na morte e sepultura do Cristo.

A vida do cristão é um batismo diário, uma vez começado desse modo.

A água não opera isso, mas é a Palavra de Deus que está na água e com a água e a fé da Palavra de Deus agregada à água. Segue-se que a ação do batismo em nome de Deus é realizada pelos homens; contudo não é por eles, mas por Deus mesmo.

O batismo não tira o pecado original quando uma concupiscência depravada está extinta, mas tira a culpa.

Mas outros entre os Reformadores crêem;

Que o batismo é um banho externo de água, pelo qual é significada uma lavagem interna dos pecados.

Que ele não confere a regeneração nem a fé, nem a graça de Deus, nem a salvação, mas as significa e as sela.

Que essas coisas não são conferidas no batismo e com o batismo, mas depois quando se avança em idade.

Que só os eleitos adquirem a graça do Cristo e o dom da fé.

Que, como a salvação não depende do batismo, é permitido que ele seja realizado por uma pessoa qualquer na falta de um ministro regular.

8. SOBRE A SANTA CEIA;

Os Reformados denominados Luteranos ensinam:

Que na Santa Ceia, ou sacramento do altar, o corpo e o sangue do Cristo estão verdadeira e substancialmente presentes e que eles são verdadeiramente distribuídos e recebidos com o pão e o vinho.

Que, em consequência, o verdadeiro Corpo e o verdadeiro Sangue do Cristo estão no, com e sob o pão e o vinho e são dados a comer e a beber aos cristãos.

Que, por conseguinte, eles não são simplesmente pão e vinho, mas estão encerrados e ligados pela Palavra de Deus e isso faz com que eles sejam o corpo e o sangue do Cristo, porque, quando a Palavra é aproximada ao elemento, ele se torna um sacramento.

Que, entretanto, não é uma transubstanciação como a dos católicos-romanos.

Que é um alimento da alma, nutrindo e fortificando o novo homem.

Que isso foi instituído a fim de que a fé restaure e recupere suas forças, haja a remissão dos pecados e a nova vida que o Cristo mereceu para nós.

Que, assim, o corpo e o sangue de Cristo são tomados não só espiritualmente pela fé, mas também pela boca de um modo sobrenatural, em razão da união sacramental com o pão e o vinho.

Que a dignidade desta Ceia consiste na única obediência e no mérito do Cristo, que é aplicado pela verdadeira fé.

Que, em uma palavra, os Sacramentos da Santa Ceia e do Batismo são os testemunhos da vontade e da graça de Deus para com os homens.

Que o Sacramento da Ceia é a promessa da remissão dos pecados por meio da fé, que leva os corações a crer.

Que o Espirito Santo opera pela Palavra e pelos Sacramentos.

Que a consagração do ministro não produz esses efeitos, mas que isso deve ser atribuído à onipotente virtude do Senhor somente.

Que tanto os que são dignos como os que são indignos recebem o verdadeiro Corpo e o verdadeiro Sangue do Cristo quando elevado na cruz, mas os que são dignos o recebem para a salvação e os que são indignos para a condenação.

Que são dignos aqueles que têm fé.

Que ninguém deve ser constrangido a essa Ceia, mas cada um deve aproximar-se dela quando a fome espiritual o impelir.

Outros Reformados, entretanto, ensinam sobre a Santa Ceia:

Que o Corpo e o Sangue do Cristo são somente tomados espiritualmente e que o Pão e o Vinho na Santa Ceia são apenas sinais, tipos, símbolos, marcas, figuras e similitudes.

Que o Cristo não está presente de corpo, mas somente pela virtude e a operação de Sua Divina Essência; mas que no céu há conjunção segundo a comunicação das propriedades.

Que a dignidade dessa Ceia depende não somente da fé, mas também da preparação.

Que somente os que são dignos recebem sua virtude, mas os que são indignos somente recebem o pão e o vinho.

Apesar dessas divergências, todos os Reformados estão de acordo em que aqueles que querem aproximar-se dessa Santa Ceia devem obrigatoriamente fazer penitência, dizendo os Luteranos que os que não fizerem penitência das más obras e se aproximarem dela serão danados pela eternidade, e dizendo os Anglicanos que, de outro modo, o diabo entrará neles como entrou em Judas. Isso é evidente pelas orações que são lidas antes da Comunhão.

9. SOBRE O LIVRE ARBÍTRIO:

Eles fazem distinções entre os estados antes da queda, depois da queda, depois da fé recebida e renovação, e depois da ressurreição.

O homem, depois da queda, é inteiramente incapaz de começar, pensar, compreender, crer, querer, operar e cooperar nas coisas espirituais e Divinas, por suas próprias forças, nem aplicar-se ou acomodar-se à graça, mas o arbítrio natural é somente para as coisas que são contra Deus e que desagradam a Deus.

Assim, o homem, nas coisas espirituais, é como um toco; contudo ele tem capacidade, não ativa mas passiva, pela qual ele pode voltar-se para o bem pela graça de Deus.

Entretanto, depois da queda, permaneceu no homem o livre arbítrio de poder e não poder ouvir a Palavra de Deus e, assim, é acesa, no coração, uma centelha de fé, que abrange a remissão dos pecados por causa do Cristo, e que consola.

Contudo, a vontade humana tem a liberdade de efetuar a justiça civil e escolher as coisas submetidas à razão.

10. SOBRE A IGREJA:

A Igreja é a congregação e a comunhão dos santos; ela está espalhada por todo o universo nos que têm o mesmo Cristo, o mesmo Espírito Santo e os mesmos Sacramentos, quer tenham tradições semelhantes ou diferentes. Essa é principalmente a sociedade da fé.

Somente essa Igreja é o corpo do Cristo e os bons são a Igreja de fato e de nome e os maus de nome somente.

Os maus e os hipócritas, por estarem misturados, são membros da Igreja segundo os seus sinais externos, contanto que não sejam excomungados, mas não são membros do Corpo de Cristo.

Os ritos eclesiásticos, denominados cerimónias, são indiferentes e não são o culto de Deus nem parte do culto de Deus.

Portanto, a Igreja tem a liberdade de instituir, mudar e ab-rogar tais coisas como distinção de vestimentas, tempo, dias, alimentos e outras coisas. Por isso, nenhuma Igreja deve condenar uma outra por coisas dessa natureza.

São estes, em resumo, os doutrinais da Igreja e da Religião dos Reformados. Os doutrinais ensinados pelos Schewengfeldianos, Pelagianos, Maniqueístas, Donatistas, Anabatistas, Arménios, Zwinglianos, Antitrinitários, Socinianos, Arianos e, hoje, pelos Quakers e Herrnhuters não são mencionados, porque foram desaprovados e rejeitados como heréticos pela Igreja dos Reformados.

(References: James 5:14-15, 5:14; Revelation 19:7, 19:9, 21:5, 21:9-10, 22:10)

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